“Na psicanálise só nos resta declarar os processos anímicos em si como
inconscientes e comparar sua percepção pela consciência à percepção do
mundo externo pelos órgãos dos sentidos”.
Sigmund Freud.
“Se nós de fato identificamos o inconsciente e determinamos de forma correta a
diferença entre uma representação inconsciente e uma pré-consciente, então
nossas pesquisas, a partir de muitos outros pontos, deverão necessariamente
remeter a essa percepção”.
Sigmund Freud.
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| Edgar Degas "Espelho" |
A Imagem de um “Eu”.
Nascemos como corpo biológico
fadado à finitude, entre esses dois extremos, vida e morte, existe um trajeto
em construção, além de ser um corpo constituir-se em um “Eu”. Segundo Freud, “ O
eu é primeiro e acima de tudo, um “eu corporal”, não é simplesmente uma
entidade de superfície, mas ele é a própria projeção de uma superfície”. (Freud,
1923).
Sabemos que na vida inicial o
recém-nascido não distingue os limites de seu próprio corpo; as sensações
internas e externas se confundem. Gradativamente ele vai definindo a superfície
de seu corpo e seu interior, o que é parte dele e o que pertence ao mundo
externo. Nesta construção progressiva, seu “Eu” vai ser constituído, sempre num
processo de troca afetiva (relacional) implicando em duas forças: ele próprio e
o outro.
O esquema corporal ou “Eu
corporal”, por sua vez, é composto por aquela parte que se distingue do “Isso”
(correspondem as pulsões parciais dirigidas inicialmente para o próprio corpo e
são auto eróticas), antecedendo o “Eu” propriamente dito, que posteriormente se
tornam narcísicas, ou seja, direcionadas para o mesmo. Em seus escritos, Freud
afirma que o “Eu” é a parte do “Isso” que foi modificada pela influência
externa, e que a percepção desempenha para o “Eu” o mesmo papel que a pulsão
desempenha para o “Isso”, não há uma separação; está implícito no “Eu” uma
parte desconhecida e de algum modo preservada, passível de retornar à luz
consciente.
O esquema corporal ou “corpo
carnal”, constitui um lugar de onde se originam as sensações externas e
internas, que vão informar sobre os órgãos internos. É efetivamente através do
olhar que se cria a imagem suposta de si. Ressalto que toda imagem criada é por
si mesma ilusória e transitória, refletindo nosso ponto de vista e o estar no
mundo. É importante lembrar que na constituição de um “Eu”, em conjunto com a
diferenciação do “Isso”, as identificações possuem papel crucial, as mesmas,
durante a fase oral primitiva não se distinguem dos investimentos objetais.
Segundo Freud, o corpo se
constitui como simbólico, através de investimento de afeto e palavras que vão
marcar o sujeito e lhe dar um lugar fundamental na estrutura familiar, lugar
este que promove a construção do “Eu”, através de um complexo mecanismo subjetivo
em conjunto com os investimentos afetivos.
Sendo assim, bebês e crianças
pequenas em sofrimento demonstram seu conflito através da via somática, de um
corpo que fala, antes do surgimento da linguagem verbal. (Freud, 1914-1916,
Vol. VII).
Tal construção se dá através de
um fenômeno psicodinâmico; envolvendo aspectos subjetivos, fisiológicos e
sociais, que são ligados a qualquer vivência corporal do indivíduo. A criança,
desde o seu nascimento e através do seu desenvolvimento experimenta o
conhecimento de seu território corporal; assim, ela aprende sobre a dimensão
espacial de seu corpo, bem como as diversas funções deste. A percepção
corporal, de um “Eu” que existe e se relaciona, é a primeira experiência na
constituição da imagem corporal do indivíduo.
Françoise Dolto (1984),
psicanalista de crianças, em suas observações clínicas, atenta-nos para a
diferença entre imagem corporal, que pode ser compreendida como construção de
um “Eu” e o esquema corporal. O esquema corporal se limita ao funcionamento orgânico
das partes do corpo, ou seja, é uma realidade factual e uma vivência do carnal
em um mundo físico.
É possível pensar que um corpo em
seu estado natural já existe e está disponível ás experiências imediatas,
podendo ser independente de uma linguagem, sua existência é evolutiva no tempo
e espaço, já a construção do “Eu” reporta o sujeito ao seu desejo, cuja
mediação ocorre através da linguagem; esta última, por sua vez, adquirida da
comunicação entre sujeitos, estabelecidas através das relações.
Segundo Nasio, a imagem
inconsciente do corpo, o que propus chamar neste texto de construção de um
“Eu”, é o conjunto das primeiras impressões gravadas no psiquismo infantil
pelas sensações corporais que um bebê, até mesmo um feto, sente ao contato de
sua mãe, ao contato físico, afetivo e simbólico, sensações estas que foram
sentidas pela criança antes do domínio da palavra e antes da descoberta de seu
esquema corporal, aproximadamente no período que envolve os três anos de idade.
(Nasio, 2009).
Construção de um “Eu” Enfermo.
O desenvolvimento da construção
de um “Eu” enfermo depende do envolvimento e troca afetiva das relações
objetais na primeira infância, compreende uma comunicação verbal com
informações fidedignas dos pais, que são direcionadas as crianças, sobre o seu
distúrbio, trocas consideradas afetivas derivam da aceitação, por parte destes
e da criança sobre sua condição. Sendo assim, faltas ou interrupções nas
relações de comunicação (imagem falante do corpo) podem desenvolver
modificações na concepção de um “Eu”, entretanto, nos casos de enfermidades
comumente há um esquema corporal “doente” e uma imagem de um “Eu” íntegra coabitando
o mesmo ser.
A mesma autora, discorre sobre a
utilização adequada de um esquema corporal doente, que com inibições acarreta
em uma utilização corporal limitada, ou anulada, entravada por uma libido
associada a uma imagem do corpo inapropriada, arcaica ou incestuosa. Essa
libido barrada se dá pela falta de castração que os adultos devem efetuar às
pulsões arcaicas do sujeito enquanto criança e das sublimações que os mesmos
responsáveis por sua educação devem lhe permitir adquirir.
Considerações Sobre a Construção
deste “Eu”.
De certa forma, as relações que
nosso corpo mantém com o mundo físico se traduzem em modificações que podem ser
passageiras ou duráveis. Tal constituição de um “Eu” se estabelece e se
remaneja ao longo do desenvolvimento infantil através de estímulos paternos
além da castração oral (diminuição da dependência, estímulo da autonomia) que
vai permitindo que a criança não seja exclusivamente dependente da mãe ou pai,
proporcionando o desenvolvimento de uma linguagem verbal compreensível aos
outros e desenvolvimento de seus potenciais.
Assim, para o ser humano, a
constituição do “Eu” é a representação inconsciente e inerente, onde são
originados os desejos do sujeito. Dessa forma, a imagem corporal é onde ocorrem
as experiências dos desejos, ou seja, o local onde se circunscrevem. As
sensações se expressam como simbolização das mais variadas percepções do
esquema corporal, vale ressaltar aquelas que levam aos encontros humanos.
(Dolto, 1984).
Reflito que as interações
incessantes do corpo nas relações e com o ambiente, por meio das diferentes
linguagens, que são oriundas do movimento deste corpo em função das demandas
sociais, culturais, biológicas, históricas e inconscientes promovem o que
entendemos por imagem de um “Eu”. Nesse sentido, é através do corpo real e um
anímico subjetivo que se adquire conhecimento, maturidade e autonomia.
Referências Bibliográficas.
DOLTO, F. “A imagem Inconsciente
do Corpo”. Trad. Noemi Moritz e Marise Levy. São Paulo: Perspectiva, 2015.
(Obra original publicada em 1984).
Freud, S. “Introdução ao
Narcisismo: Ensaios de Metapsicologia e Outros Textos”.São Paulo: Companhia das
Letras, 2010. (Obra original publicada em 1914-1916).
Freud, S. “O Eu e o ID, Autobiografia
e Outros Textos”. São Paulo: Companhia **Texto apresentado para (Centro de
estudos psicanalíticos) como processo de construção do percurso de formação.
FONTE:
https://www.linkedin.com/pulse/esquema-corporal-e-constitui%C3%A7%C3%A3o-de-um-eu-andressa-azambuja/?originalSubdomain=pt
https://www.linkedin.com/pulse/esquema-corporal-e-constitui%C3%A7%C3%A3o-de-um-eu-andressa-azambuja/?originalSubdomain=pt

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