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"Para dar início a uma abordagem psicanalítica das causas da esquizofrenia, será apresentado o conceito de libido para a Psicanálise. A Libido seria uma energia voltada para obtenção de prazer, nesse sentido que é definida também como uma energia sexual, no que resultou para a Psicanálise as etapas psicossexuais do desenvolvimento infantil
A libido é a energia afetiva Original, escorada numa zona erógena corporal, resultando numa fase específica de desenvolvimento (fase oral, anal, fálica), ela sofre continuas mudanças em sua organização. Cada nova configuração da libido é organizada em torno de uma zona erógena, causando uma modalidade de relação de objeto (RAPPAPORT; FIORI; DAVIS, 1981).
Conforme Brenner (1978), a energia libidinal de um objeto de uma fase anterior, retrocede assim que avança a fase seguinte, porém, embora diminuída, ela não é excluída, o que explica a fixação da libido nas diferentes fases do desenvolvimento frente a vivências de extrema frustração ou de gratificação.
Por definição freudiana todo vínculo de prazer é sexual ou erótico, este se organiza progressivamente em torno de fases erógenas específicas, a libido marcará três fases do desenvolvimento da criança: a fase oral, anal e a fálica. (RAPPAPORT; FIORI; DAVIS, 1981).
Há uma tendência de como essas fases devem ocorrer, mas, se por um momento no desenvolvimento do bebê houver uma angustia muito forte, o Ego é obrigado a agir mediante mecanismo de defesa, isso ocorre porque o sujeito não consegue ter seu desejo realizado, deixando um acumulo de energia imobilizada, com isso o Ego fica mais frágil, resultando em dificuldades no desenvolvimento do indivíduo, o tornando menos resiliente, e quando enfrentar novos momentos críticos, se essas experiências forem angustiantes demais para o indivíduo, o Ego voltará para estes pontos de fixação (RAPPAPORT; FIORI; DAVIS, 1981).
Para Abraham, (1924/1970 apud RODRIGUES; JUNIOR, 2017), a fase oral é a fase mais primitiva. A boca é o primeiro órgão que proporciona prazer ao bebê, é através da cavidade oral que os bebês recebem o alimento e também ocorre o prazer pelo ato de sugar. (FEIST; FEIST; ROBERTS, 2015).
Se na fase oral o bebê não tiver sempre que necessário a gratificação do seio da mãe como maneira de se gratificar, ele poderá utilizar-se para se acalmar do ato de sugar seus próprios dedos, da mão ou do pé. Essa capacidade de se auto gratificar suas necessidades sexuais, quando ocorre de maneira exacerbada (por um excesso de frustração nesta fase), pode se transformar num autoerotismo, gerando no bebê uma certa indiferença em relação ao ambiente, e o deixa vulnerável a desenvolver um complexo retraimento em relação ao mundo externo, para um interesse excessivo ou totalmente, voltado, para si mesmo, tal como é o caso da esquizofrenia (BRENNER, 1987).
Segundo Freud, (1910 apud JARDIM, 2011), o sujeito esquizofrênico vivencia uma regressão narcisista, que resulta em um abandono completo do amor objetal e a reconquista de uma satisfação auto erótica, assim como ocorria com ele na fase oral.
Freud aponta que os delírios de grandeza são resultados do desinvestimento do mundo externo e retomada da libido sobre o Eu, sendo o delírio uma tentativa de cura, é uma reconstrução do mundo externo, ainda que por uma via completamente imaginária.
Esta dinâmica de regressão do sujeito a um modo de funcionamento arcaico, manifestando um padrão de relação objetal próprio da fase oral do desenvolvimento, reflete, conforme Freud, (1910 apud JARDIM, 2011), a vivência de experiências emocionais traumáticas para este indivíduo, nesta fase, podendo estas vivências traumáticas realmente terem ocorrido ou não, no caso em que o próprio sujeito pode ter percebido determinadas experiências como traumáticas em razão de dificuldades próprias para lidar com a frustração.
Assim, na concepção psicanalítica a esquizofrenia consiste na não estruturação do eu (em razão de experiências traumáticas na fase oral), onde este EU fragmentado leva o psicótico a uma organização pulsional auto erótica, afastando assim, o seu EU da realidade (CONCEIÇÃO, 2008).
É necessário que a mãe atinja o estado de preocupação materna primária, para assim poder oferecer ao seu bebê a possibilidade de sentir o mundo, por meio de sua capacidade de identificar-se com seu bebê, para que o indivíduo em potencial possa se conhecer de um modo particular e pessoal que existe, de que faz parte de um mundo, com isso trilhar o caminho de sua existência.
Conforme Winnicott (1965 apud DIAS, 2015) o bebê ao nascer ainda não pode ser considerado um ser com a condição de individualidade, sendo uma extensão do seio da mãe, por meio de uma relação intensa de identificação com a mesma.
Um ser com uma identidade individual é uma condição que precisa ser conquistada pelo bebê ao longo do primeiro ano de vida. Ele precisa vivenciar experiências de integração, experimentar sensações e excitações corporais causadas pelo oferecimento do seio, por exemplo.
De início, as forças do id aparecem como externas ao bebê e só um ambiente suficientemente bom e o cuidado materno, agindo como ego auxiliar, possibilita que o ego se desenvolva para posteriormente diferenciar o que é externo e o que faz parte de seu self. (RODRIGUES; JUNIOR, 2017).
O não atendimento as necessidades da criança além de gerar frustração, gera também a aniquilação, ansiedades inimagináveis, angústias ou, em fases mais precoces, a perda da capacidade de se sentir real. O bebê para lidar com esse tipo de situação, na qual ocorre um bloqueio no processo de integração e amadurecimento, faz uso de mecanismos de defesa psicóticos, do tipo esquizoide ou do tipo falso self. Assim, quando o ambiente não é suficientemente bom, não haverá o desenvolvimento do ego e sim o estabelecimento de um pseudo-eu que é definido como diversas reações a uma sucessão de falhas na adaptação. (RODRIGUES; JUNIOR, 2017).
Conforme a opinião dos teóricos da Psicanálise que foram apresentados neste estudo, a esquizofrenia representa uma fixação do sujeito em etapas primitivas do desenvolvimento psicossexual, especificamente na fase oral, iniciada no nascimento, estendida até em torno do primeiro ano de vida do bebê.
Quando o ambiente não é suficientemente bom não haverá no bebê o desenvolvimento adequado do ego, e sim ocorrera o estabelecimento do pseudo-eu, ocorrendo um bloqueio no processo de integração e amadurecimento, do qual o sujeito poderá fazer uso de mecanismos de defesas psicóticos, do tipo esquizoide, ou do tipo falso self.
A Esquizofrenia resulta em uma manifestação desse pseudo-eu, refletindo possíveis falhas na maternagem."
Autores: Mariana Machado Laureano Leme.
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